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 O OBSERVADOR

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† Maurício †
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MensagemAssunto: O OBSERVADOR    Sab 03 Dez 2011, 02:33


Tudo começou como uma brincadeira.
Ele
chegou cedo em casa, acendeu as luzes e deitou-se na cama. Estava
cansado. Trabalhara o dia inteiro, mas finalmente havia chegado ao seu
doce refúgio. A casa era de dois andares, num subúrbio do Rio Grande do
Sul, pequena e aconchegante. Suas paredes brancas contrastavam com a
solidão de seu interior vazio e fúnebre. Só possuía três peças o
casebre. Um banheiro e cozinha embaixo com o quarto na parte superior.
Jorge havia se mudado há pouco tempo, não conhecia muita gente, não
possuía muitos móveis, mas tinha sua morada como um esconderijo, uma
fortaleza. Era o que mais gostava no dia. Poder deitar naquela cama, se
espreguiçar pra todos os lados, ninguém pra perturbar. Sequer um
bichinho de estimação. Mas como disse, tudo começou como uma
brincadeira.
Lá estava Jorge relaxando, tranqüilo na nova casa,
quando ouviu um ruído vindo da basculante. Era um ruído próximo, como se
fosse ao lado da cama, mas ele estava no andar de cima. O que poderia
haver do lado de fora da casa? Nem mesmo havia reparado nisso quando a
comprou. O barulho persistiu.
Jorge levantou-se meio sonolento
ainda e caminhou naquela direção, tentando descobrir o que fazia aquele
som. Aproximando-se da janelinha, pôs os olhos furtivamente sobre o vão
do vidro e observou uma deliciosa cena: uma loira de cabelos compridos,
alta, seios fartos, cintura perfeita, tomando banho na residência ao
lado da sua. Uau!
Ele ficou estagnado por um momento, quase teve
um espasmo de alegria, mas conteve-se refletindo na situação. Será que
deveria continuar ali onde estava? Observando como um tarado qualquer
que espreita uma cena perniciosa? “Claro que sim!” Pensou ele
instintivamente.
Na verdade tivera a maior sorte da vida. O lugar
certo na hora certa. Aquela janela dava para o banheiro de outra casa. E
olhando ao seu redor, Jorge notou que haviam outras basculantes como
aquela!Quem sabe...Sim! as janelas de seu quarto se direcionavam para
outros cômodos de outras casas. Simplesmente perfeito!
E assim
começou a brincadeira deliciosa de Jorge. Todos os dias chegava em casa
como um louco e corria para as janelas. Ficava a noite toda lá,
espionando, observando. Logo, começou a dedicar os finais de semana
inteiros naquela atividade. Depois parou de se alimentar frequentemente
para economizar tempo em sua missão. Comprou câmeras, binóculos, anotava
e redigia tudo o que via, tudo o que ouvia. Estava paranóico!
Dois
meses depois estava sem emprego, magro e completamente só. Nada deveria
atrapalhar sua obsessão. Dias e noites a fio com os olhos ali,
controlando tudo o que se passava nas moradias alheias. Um guarda
silencioso. Eterno vigia sombrio preso nos pensamentos obscuros da mente
insana. Só havia um grave problema que o importunava todas as vezes que
se encontrava de tocaia: a intensa vontade dos vizinhos de VIVER!

Apesar de Jorge ter se isolado totalmente do mundo externo, vivendo de
raras refeições, dedicando-se de corpo e alma à sua tarefa,seus nobres
vizinhos não compartilhavam do mesmo compromisso para com ele. Como
todas as famílias normais saíam para passear, trabalhavam, enfim,
possuíam um jeito normal de ser. Foi aí que Jorge resolveu ajudá-los a
ter mais responsabilidade e respeito para com os outros.
-----------------------------------------------------------------

Depois de uma semana presos como ratos numa gaiola, já deveriam estar
sentindo o gostinho de como é ficar tanto tempo só, sem poder sair para
nada, completamente esquecidos pelo mundo. Agora veriam como era bom! “
Grande idéia soldar as portas, trancafia-los todos de uma só vez. Grande
idéia!" Satisfazia-se Jorge por dentro, remoendo consigo mesmo a
atitude que tomara para acabar com aquele despeito. Imaginem só, que
insolência! Pensar que podiam ficar livres por aí enquanto ele sentia-se
tão... preso! Mas agora colhia os louros da vitória. Podia espreitar à
vontade. Sem interrupções." Que ótimo!" Só que tudo o que é bom dura
pouco tempo.
“Ai, que droga, calem a boca! Chega de choro, seus
idiotas!" Mais uma vez Jorge revirava-se na cama tentando dormir. Mas
como, se não ficavam quietos? Toda a graça, toda a naturalidade da coisa
se perdera por completo. Não era mais como antes. QUE GRANDE DROGA! Não
durou muito até que se arrependesse tremendamente de ter feito o que
fez. O que fazer? Chamou a polícia (pobre Jorge).
Passaram-se
algumas horas e houve um grande tumulto. Muito barulho. “ quem sabe
daqui há um tempo o silêncio não volte a reinar” pensava ele tomando um
cafezinho, enquanto observava pela janela as pessoas arrombando a porta
na casa ao lado. E na outra. E na outra de novo." Quem sabe não é?”

De repente o barulho começou a ficar mais forte. E mais intenso. Como
se fosse ali mesmo, na própria casa de Jorge. “ Que estranho!" Não tão
estranho quanto aquela fumaça que invadiu o local. Nem aqueles homens
correndo ao seu encontro. Mais esquisito ainda aquela horrível dor na
nuca. O que teria acontecido?
Agora Jorge estava num lugar
minúsculo, deitado em uma espécie de cama com correntes que prendiam
seus pés e mãos. de vez em quando surgia um prato de comida por debaixo
da imensa porta de ferro que não o deixava sair. Nada de janelas. Nada
de vizinhos. “ Que lugar é este?” Pensava Jorge, apavorado.A noite,
tinha pesadelos horríveis com demônios todos de branco que vinham lhe
atormentar com agulhas, alfinetando seu corpo todo sem parar.
obrigavam-no a engolir coisas com um gosto estranho que lhe davam
arrepios e traziam à memória todo o tipo de sofrimento por que já tinha
passado. Jorge sentia-se todo o tempo observado, algemado, como se olhos
vivos o vigiassem o tempo todo. Diferente de antes, tudo o que ele
queria era SAIR, SAIR,SAIR!
Do outro lado da sala o enfermeiro da ala psiquiátrica conversava com o médico:
‘O que o senhor acha desse caso doutor?'

“ Meu jovem, é bom que você observe bem. Como pode ver ele está
paranóico. Necessita de terapia intensiva. Tome conta especialmente
deste paciente. Jamais o deixe sozinho, de maneira nenhuma.”
‘ Será que tem solução doutor?’

Não, meu amigo. Creio que não. Pela minha experiência, digo que passará
o resto de seus dias aqui. Tudo o que lhe resta agora é ser observado
constantemente para pesquisas médicas. Mas não se entristeça, olhe o seu
histórico mental! Com certeza ele adorará ser vigiado para sempre por
nós.'

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